A voz da violência

Bibiana Gomes, Maputo, 2 de setembro de 2010

Em maio de 2006, São Paulo viveu horas de pânico e terror. Quem estava por lá se lembra daquela sensação de insegurança e medo. Naqueles dias, os “terroristas” eram criminosos travando com as autoridades um braço de ferro, tentando provar que, por meio da violência, tinham o poder nas mãos.

Em setembro de 2010, Maputo, em Moçambique, viveu horas semelhantes. Na verdade, muitas horas. A sensação de medo e insegurança se repetia. Na rua, carros em chama ou sendo apedrejados, troncos, pneus e barricadas fechavam estradas. Pessoas gritando palavras de ordem e tiros, muitos tiros vindos da polícia como forma de tentar reprimir os atos de violência (mesmo que isso não faça o menor sentido, na mente dos pacíficos).

Mas a grande diferença entre as duas capitais, neste caso, não foi a geografia. Em Maputo, a onda de violência foi o grito do povo na luta contra o aumento do “custo de vida”. Quando o governo anunciou o aumento da água, energia elétrica e do pão, um grupo anônimo passou a mobilizar a população para que no dia primeiro de setembro fizesse uma greve geral, paralisando transportes e serviços. O aclame foi feito via mensagens de texto de celular, o grande instrumento de comunicação do povo.

Controlar a greve e os tumultos se tornou mais difícil pelo fato de ser um movimento “sem rosto”. Não havia com quem negociar nem eram claras as reivindicações dessa greve. Claro, que em meio ao caos, aparecem os oportunistas e arruaceiros, como o governo daqui gosta de reforçar. Lojas são saqueadas, edifícios depredados. Ou como disse uma conhecida, “é uma greve de crianças”, já que elas estão por toda parte na cidade.

O saldo da violência, com números oficiais, é de 6 mortos e 142 detidos. O número de feridos não é certo.

Escrevo este texto dia 2 de setembro, às 17 horas aproximadamente… e acabo de ouvir mais tiros. Ainda não acabou, nem é possível prever quando ou como vai acabar.  Talvez os tiros cessem, os focos de incêndios se apaguem, mas em um país onde o espírito da guerra ainda paira, infelizmente, parece que a violência é uma tentativa de ser ouvido, de clamar por liberdade. Confuso para quem nunca precisou pegar em armas para defender uma causa.

Em São Paulo ou em Maputo, a violência é igualmente assustadora. Seja como forma de intimidação ou como reivindicação por melhoria da qualidade de vida, está se tornando um instrumento público de comunicação. Isso é preocupante e também é alarmante, porque, ainda que com repúdio, a voz dos violentos se faz ouvida.

Espera-se que até amanhã, Maputo volte a normalidade, pelo menos aparentemente. Mas depois das manifestações, temos uma pista do que se passa na mente do povo, do grito reprimido e do potencial de mobilização dessa sociedade.

Esta entrada foi publicada em Notícias e política. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Uma resposta para A voz da violência

  1. Gabu disse:

    O grito por justiça é o som de uma pistola. A resposta? Esperança.Palavra esta importante num luta, e imprescindível pra vitória.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s